segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

São Paulo: onde a literatura vira obra de arte

"Viver é negócio muito perigoso".
Guimarães Rosa

O Museu da Língua Portuguesa foi instalado na Estação da Luz a dedo. A construção foi ponto de encontro das mais diversas línguas imigrantes que chegavam a São Paulo no século 20. Ao lado da trajetória do nosso idioma – que nasceu, há 4 mil anos, em algum território que se estendia da Ásia à Europa – está a espetacular exposição que comemora os 50 anos da obra Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

"Amor só mente para dizer maior verdade".
Guimarães Rosa

Mesmo quem não leu o livro vai poder mergulhar na linguagem primorosa que o discurso rosiano oferece. A mostra consegue retratar a alma do autor e o seu escrever, deixando o lúdico encontro tão arrebatador quanto a própria publicação. Numa sala cheia de varais - que lembram um pouco a literatura de cordel - estão ampliadas folhas datilografadas da 3ª edição do livro. Achei de uma criatividade incrível. Estou tão acostumada aos museus tradicionais do quadro-escultura-obra-louca que fiquei assombrada com a delicadeza da idéia de retratar a literatura de forma tão festiva e inovadora.

"Deus é paciência".
Guimarães Rosa

Os painéis gigantes revelam as alterações e correções que o autor fazia de próprio punho. Uma demonstração de que a composição de textos é um exercício constante e mutável. Revela que o talento de um grande escritor nada mais é que um buscar persistente e inabalável pela forma e conteúdo perfeitos. A gente que escreve - looonge de querer se comparar a um Guimarães Rosa, passa por isso também. Essas linhas que vos apresento não saíram de primeira, desse jeito, limpinhas, prontas para você ler. Já escrevi, reescrevi, pesquisei, mudei palavras, tirei algumas, acrescentei outras. Sem contar que não sei usar as vírgulas e sempre tenho dificuldade com a crase. E mesmo depois de publicado eu mexo no texto. Algo como uma 4ª ou 5ª edição revisada do post.

"Quem desconfia fica sábio".
Guimarães Rosa

Como a linguagem utilizada por Guimarães Rosa ultrapassa as dimensões poéticas pela riqueza de palavras e frases brilhantes, a exposição - além de criar o ambiente agreste e regional de Grande Sertão: Veredas - transpõe o óbvio. Em tambores espalhados pelo salão, trechos das conversas entre Riobaldo e Diadorim, personagens antológicos do livro. Tudo escrito ao contrário, só o espelho permite a leitura correta. O ler aqui não é simplesmente um movimento dos olhos associado a um batimento cardíaco mais forte ou suave. Para entrar no universo do autor o visitante não lê, enxerga.

"Toda saudade é uma espécie de velhice".
Guimarães Rosa

O aforismo (frases ou reflexões de efeito, uma das características lingüísticas da obra) está espalhado pela andar que abriga a exposição. Estão em tijolos as máximas que transformaram Guimarães Rosa em um dos maiores autores do modernismo brasileiro. Entre elas, “toda saudade é uma espécie de velhice” ou “a liberdade é assim, movimentação” e a famosa “viver é negócio muito perigoso”.

"O sertão é do tamanho do mundo".
Guimarães Rosa


A obra, narrada em 1ª pessoa por Riobaldo, ocorre no sertão mineiro, sul da Bahia e Goiás. A narrativa é densa e tem caráter universal – aquela história do homem e seu destino - sendo comparada por muitos à obra-prima Dom Quixote de La Mancha, do espanhol Miguel de Cervantes. Para dar essa idéia de universalidade, outra idéia genial dos organizadores da exposição: os fragmentos escritos nos entulhos. De perto, numa primeira olhada, não é possível decifrar o texto. Parece todo entrecortado. Mas subindo em escadas estrategicamente colocadas em diversos pontos da mostra o visitante consegue identificar a abastança de idéias, o modo de historiar e o uso radical e inteligente que João Guimarães Rosa fez da língua portuguesa.

Serviço:

A mostra Grande Sertão: Veredas está no Museu da Língua Portuguesa por tempo indeterminado.
Local: Estação da Luz. Praça da Luz, nº 01 – São Paulo
Horário: 10h às 18h (última entrada permitida às 17h). De Terça a Domingo.
Ingresso: R$ 4,00 – Estudante paga meia. Menores de 10 anos e professores da rede pública não pagam. A entrada dá direito a conhecer o museu inteiro.

Fotos: Raul Mattar

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domingo, 17 de dezembro de 2006

São Paulo: Museu da Língua Portuguesa

Fuxico. Capim. Axé. Jabuti. Xodó. Caju.
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Prosa, poesia, romance, novela. De Carlos Drummond a Guimarães Rosa. De Gregório de Mattos a Arnaldo Antunes. Um museu sem obras ou esculturas. Um museu de palavras. As que formam o nosso idioma, o brasileiro. Um empório semântico. Uma espécie de secos e molhados da língua portuguesa. Assim, à vontade, feito para quem sabe ler e para quem só sabe falar. Ou ainda para quem prefere só escutar. Dedicado a um idioma formoso e gentil (só nós temos a palavra saudade), mas às vezes confuso e desvairado (alguém já ouviu ou disse dar-se-ia?). Fiquei embasbacada, sem nenhuma palavra.

No entanto, entretanto, contudo. Porém.

São três andares de uma coisa que eu nunca vi em lugar nenhum: um museu que explica, comenta e interage para contar a história de um idioma. Custou R$ 37 milhões e três anos. Um vídeo de 10 minutos - fascinante - sobre a origem da linguagem e das línguas é exibido a cada hora. Ele deve ser o ponto de partida da visita.

Lengalenga. Beleléu. Encafifar. Maracutaia.
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Em seguida, mais 20 minutos dentro de um anfiteatro que parece um planetário de palavras. Muitas projetadas no teto, nas paredes, no chão. Aparecem textos e frases de Euclides da Cunha, Vinícius de Moraes, Machado de Assis, Noel Rosa e até do conterrâneo Fernando Pessoa. Tudo embalado por música e sons. No princípio, o mantra “penetra surdamente no reino das palavras” é entoado umas 30 vezes na voz de Arnaldo Antunes. Fica-se quase em transe. São muitas expressões, termos e vocábulos luminosos e únicos, originados de uma mescla sofisticada dos falares africano e indígena.

Fleuma. Flama. Luz. Força. Garça. Morsa.


O museu fica dentro da Estação da Luz. No segundo andar, você realmente se sente em uma estação de trem. Um telão de 106 metros de comprimento atravessa o edifício histórico de ponta a ponta. São projetados diversos filmes que demonstram, através do cotidiano, a importância da linguagem. Sem ela – escrita ou falada – como seria o nosso carnaval? A música? A culinária? O futebol? O meio? A mensagem? O jornalzinho de bairro? A receita médica? A bula do remédio? O cinema? A internet? Este blog?

Inducação. Hómi. Meis. Véio. Mais pió. Mió de bão.
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A parte de que mais gostei: estas palavrinhas existem e são consideradas CORRETAS – dependendo do lugar em que você está ou com quem você está falando. Um painel interativo explica a diferença entre o Português Brasileiro Popular e o Culto. Segundo os especialistas do museu, quem fala o português popular não fala de forma errada, apenas de acordo com o meio social em que vive. “Falar errado é não se fazer entender em seu meio ou usar uma variedade inadequada para o ambiente em que o falante se encontra”, explica o professor Ataliba de Castilho num dos vídeos à disposição do visitante. Ou seja, se você liga para alguém na roça falando “estaremos chegando amanhã de automóvel”, o caipira é você!

Serviço:
Museu da Língua Portuguesa
Local: Estação da Luz. Praça da Luz, nº 01 – São Paulo
Horário: 10h às 18h (última entrada permitida às 17h). De Terça a Domingo.
Ingresso: R$ 4,00 – Estudante paga meia. Menores de 10 anos e professores da rede pública não pagam.
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Fotos: Raul Mattar

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sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Não vi o apagão

Desde que começaram as sessões de tortura nos aeroportos do Brasil eu não tinha viajado de avião. Não sei se você se lembra, mas o deus-nos-acuda teve início lá no feriadão de 02 de novembro. Aliás, foi a primeira vez que não blasfemei por ter ficado um feriado prolongado no meu santo lar. Foi quase uma premonição (aliada à falta de dinheiro) que me fez optar por desfrutar da vista da minha sacada e usufruir da internacional cozinha Oliveira´s.

Fiz uma viagem curtinha para São Paulo o que poderia ter me rendido um stress até o fim do ano. Mas não. Como meu anjo da guarda é mochileiro, saiu tudo na hora prevista e marcada. Na volta, um atrasinho pequeno. E nada a ver com os controladores ou pane em equipamento. É que o aeroporto de Curitiba (para não variar) estava fechado.

domingo, 10 de dezembro de 2006

São Paulo: museu com esfiha, meu prato predileto

Quando li nos jornais que São Paulo inaugurava um museu que homenageava a nossa língua – ainda sem saber que era o único do mundo nesse estilo – fiquei estupefata com a ousadia dos idealizadores. Senti um orgulho imenso de falar esse idioma cheio de excentricidades e exceções. Já me imaginei descendo do avião na capital paulista, pegando um táxi e dizendo ao chofer: “Para o museu, por favor.” Pirlimpimpim, acordei. Claro, eu provavelmente desceria na rodoviária, procuraria a saída para o metrô ou a fila do ônibus. Mas o destino, ainda assim, seria o mesmo: o Museu de Língua Portuguesa.

Como acredito muito na força do pensamento o meu desejo se realizou. Graças à fada madrinha GOL, vou de avião pelo preço do ônibus. Arrematei uma passagem Curitiba-Congonhas por R$ 64,00. Obviamente, não vou me livrar do metrô. Mas tudo bem, sou interiorana e bem suburbana: acho o m-á-x-i-m-o andar nesses trenzinhos. Serão três dias em São Paulo, uma devassa completa no museu, duas idas à Pinacoteca do Estado, uma visita ao Mercadão Municipal e três esfihas no Jacob da 25 de Março. Depois conto como foi.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

Turismo étnico cria Rota do Escravo no Brasil

Olha só que coisa mais brasileira: uma rota turística que mostra a história e a cultura dos negros. Para reconstruir essa trajetória, a Fundação Cultural Palmares - órgão ligado ao Ministério da Cultura – apresentou (e colocou em prática) um projeto audacioso: mapear 18 cidades do interior de São Paulo para formar a Rota do Escravo. Cidades do Litoral Norte, Vale do Paraíba e Serra da Mantiqueira fazem parte do roteiro. Durante o caminho, que pode durar alguns dias, é possível conhecer a gastronomia típica, documentos do período escravocrata e construções históricas.

São seis roteiros diferentes. Cada um aborda de maneira distinta a cultura negra. Ali por Taubaté e Pindamonhagaba é possível aprender um pouco mais sobre a história dos Barões do Café, que tiveram em suas fazendos pura mão de obra negra - escrava ou não. Passando pela antiga São Luís do Paraitinga é a chance de conhecer o que foi a movimentação popular pela Abolição da Escravatura. Para entrar no universo religioso da tradição afro-brasileira, o passeio tem início em Piquete e vai até Cruzeiro ou Cunha.

Além de criar uma rota tão nossa, o projeto vai ajudar a descobrir quem são os verdadeiros descendentes de quilombolas – nome dado pelos historiadores aos moradores dos quilombos. Infelizmente, não posso descrever detalhadamente o roteiro porque não estive por lá ainda, mas achei bacana deixar registrado aqui. Não sei não, mas acho que é o único do gênero do mundo.

20 de novembro: Dia da Consciência Negra.

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

O título de "viajada"

Tenho mania de colecionar certificados e diplomas. Deve ser algum complexo de inferioridade ou medo de ficar – ou parecer - burra. Não que certificados e diplomas deixem a gente mais inteligente, mas estudar nunca teve nenhuma contra-indicação. Estes dias me perguntaram por que eu estava fazendo doutorado se nem professora eu era. Credo, que gente invejosa! O fato de estudar (e isso pode incluir apenas ler um bom livro ou assistir a um bom filme) só me torna uma pessoa melhor: mais centrada nos meus propósitos, voltada aos meus projetos e menos preocupada com a vida dos outros.

Mas uma coisa é verdade. Existem títulos que a gente só tem porque pagou o curso. O meu certificado de inglês com 250 horas de aula, por exemplo, é um desses. Outros até aproveitei bem. Fiz corte e costura no Sesc, word no Senac e aulas de Português com o Professor Carlos, em Londrina. Tudo devidamente certificado. Antes já tinha sido influenciada pela mãe que imagina um futuro melhor para o filho: enfrentei aulas de balé (12 anos), pintura em porcelana (cinco anos) e piano (um mês). Até que no meio dessas histórias/cursos eu resolvi começar a viajar. Aos 14 anos fiz uma excursão com os amigos do Colégio Hugo Simas, onde estudei da 1ª a 8ª série. Fui para a Serra Gaúcha. Conheci em uma semaninha Garibaldi, Bento Gonçalves, Canela, Gramado, vinícolas e um dos melhores chocolates do Brasil. Naqueles sete dias aprendi tanta coisa, vi tanta gente, conheci tanta história, tantos personagens... que matutei: quando eu crescer quero ser VIAJANTE!

Primeiro pensei em ser aeromoça, mas me barraram no cursinho preparatório. Naquele tempo tinha que ter altura mínima. Acha? Depois insisti no balé. Pelo menos com o grupo de dança eu viajava para muitos lugares e cheguei a conhecer, com o corpo de baile, o nordeste brasileiro de ônibus! Daí resolvi ser jornalista e a coisa degringolou de vez. Comecei a ter más companhias e, com outra jornalista, fiz minha primeira viagem para a Europa, depois para o Oriente Médio e outras tantas pelo Brasil. Até que um dia, discutindo sobre antropologia (tema que não domino lhufas) com um grupo de amigos, um deles lança: pergunta para a Silvinha, ela é viajada! Foi aí que me dei conta: ser viajada nos inclui naquele grupo de pessoas que todo mundo acha que podemos opinar sobre história, política, museus, astronomia, moda, horóscopo e até antropologia!!!

Acontece que viajar não nos dá esse passaporte para o mundo do conhecimento, assim, de bandeja. Vai conhecer Manaus? Tem que ler sobre o ciclo da borracha. Gostaria de ver de perto o Alhambra, em Granada? Entenda o que foi o domínio árabe na Espanha. Quer ir para Blumenau? É recomendável buscar alguma informação sobre os fluxos migratórios do sul. Está interessado na Rota do Vinho chilena? Aprenda sobre tanino. (Por isso, nunca fiz essa viagem, não consigo entender a religião dos vinhos). Mas meu amigo Gerson, esse – sim – viajadérrimo, está me ensinando muito sobre vinícolas, taças e safras. Foi ele, inclusive, quem me explicou sobre o t-a-n-i-n-o.

É claro, os viajados e as viajadas não estão habilitados a sair dando opinião sobre tudo ou qualquer coisa. Principalmente aqueles que só viajam em excursão, nunca pegam um metrô, não visitam as feiras livres, só comem nos restaurantes indicados pelos guias tradicionais, não se interessam pelos nativos nem pela história do lugar. Mas ainda que seja um título poético, o de viajada é o meu preferido. Afinal, não precisa nem ser rico para ter um. E é bem mais legal que ser inteligente. Rá rá rá.

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Saudades de Sevilha...

Juro. Não mexi no céu. O Photoshop não serve para nada em Sevilha. Os anoiteceres da capital andaluza - por volta das 22h no verão - são sempre assim.

No lugar certo, na hora certa. Palácio Real Alcázar. São 10 minutos de sombra, entre 18h50 e 19h. Na parede de mosaicos árabes o reflexo da arquitetura moura. Patrimônio da Humanidade.

Faltaram as castanholas.

A Giralda. É o minarete da antiga mesquita - a Espanha esteve sob domínio árabe por séculos. Hoje, o campanário da catedral. Ao lado, seus arredores.



Deu saudades. Daqui a cinco meses tenho de voltar para lá. Mais uma etapa do doutorado. Prometo tirar fotos das castanholas.

Fotos: Matraca´s Image Bank

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